Entrevista: Fred Andrade


O Brasil é tão vasto, tão rico culturalmente – mas o meio guitarrístico, por alguma razão, raramente nos presenteia com um representante  de nossas raízes à altura. Claro, há uma vasta seleção de nomes que honram a pátria com estilo, qualidade técnica e artística. Mas, na maioria dos casos, seu vocabulário deve bem mais a nossos vizinhos da América do Norte ou à enevoada Londres.

Nada contra a influência dos gringos por aqui – muito pelo contrário. Essa mistura rendeu alguns dos grandes nomes das seis cordas brasileiras, como Pepeu Gomes, Armandinho Macedo, Lenny Gordin, além de gente mais nova como Frank Solari e Davi Moraes.

E é mais um fruto dessa amálgama da herança blues/rock da guitarra com nossas raízes violonísticas que tive o prazer de receber para um bate-papo. Fred Andrade tem longa carreira como músico de estúdio e sideman, mas há alguns anos teve a (brilhante) idéia de criar uma obra sua, autoral e original. Sorte a nossa. Sua mistura de Frevo, Baião, Erudito, Jazz e o bom e nunca velho Rock’n’roll é altamente inspiradora para os instrumentistas procurando por novas idéias, mas é melódica e emocionante, alcançando também aqueles que apenas apreciam a arte de se fazer música com cordas. Além disso tudo, é gente fina até não poder mais – se estivéssemos sentados a uma mesa, essa conversa ia ser difícil de terminar… Mas, tentamos nos conter, e eis aí o resultado. Enjoy.

 

Vamos começar pelo começo – quando surgiu essa sua mistura de frevo, erudito, jazz e rock?

O Jazz veio um pouco depois do Erudito. Aqui em Recife teve uma época que se tocava muito na noite esse lance dos standards. Tirávamos coisas do Real Book e algumas coisas de ouvido, mas tudo muito intuitivo. Lembro que a primeira vez que ouvi a palavra lick foi com Spok. Tocamos num bar e ele me viu harmonizando legal, mas na hora de improvisar era meio bunda presa e ele falou sobre o estudo de frases sobre progressões padrão e tal. Aí tome correr atrás do Omnibook e devorar os turn arounds que Chalie Parker fazia (risos). Hoje toco bem menos jazz. Na verdade cansei um pouquinho de ficar macaquiando gringo e fui achando minha maneira mais natural de tocar. Já tem gente demais no planeta tocando Jazz que só a peste. Aí fui seguir meu caminho e descobri que tava muito mais perto do que eu podia imaginar.

 

E esse processo de fusão da linguagem mais brasileira e nordestina ao improviso jazz e à pegada rock já é evidente no seu primeiro trabalho solo, Ilusões a Granel. O que te impulsionou a gravar um disco autoral – sendo que vc já tinha uma carreira em estúdio e acompanhando artistas?

Trabalhar sob encomenda é maravilhoso, pois te força a entender as milhares de possibilidades de entendimento das artes. Você tem de encontrar soluções em um tempo muito, muito curto e com certeza isso foi enriquecedor. Só que tem uma hora que o camarada quer fazer a onda dele… Eu já compunha muito desde novo e inclusive no Ilusões tem música que fiz quando aos 17 anos ( inclusive pensei em até não gravá-las , pois já tinha outro pensamento em relação à composição). Meu barato sempre foi fazer música na verdade. Tive meus momentos de alucinação achando que poderia ser o maior guitarrista do universo e depois fui ver que era o maior só lá da minha casa pois não tinha concorrência, graças à Deus (risos). Hoje ainda trabalho com trilhas e tal, mas acontece muito de me chamarem pra fazer exatamente coisas que precisem de minha assinatura e é óbvio que fico muito feliz por esse reconhecimento. Não que de vez em quando eu não grave uns bregas e outras coisas que não sou muito sintonizado, mas é mais raro.

 

Seu trabalho autoral acabou então, de certa forma, até tornando o trabalho de músico de estúdio um lance mais prazeroso. E mais valorizado também?

Sim Grua. Com certeza, hoje sou mais bem remunerado e tenho um reconhecimento grande exatamente pelo que fiz com música. Se ainda estivesse só na de acompanhar, acho que tudo teria estagnado bem mais. Eu faço menos coisas mas com mais valor financeiro e afetivo e isso é arretado. É a realização de um sonho….

 

Muita gente fica estagnada na música por falta de coragem em arriscar na própria voz…

Eu acho sim… No disco Mandinga que hoje está completando 10 anos, ouvi muita crítica, pois não soava como os ícones da guitarra dos anos 80 e 90. O espírito de colonizado era fortíssimo.Tudo que era gringo era muito vaslorizado e aquela guitarra crua misturada à viola, a não utilização de teclados… Tudo isso ia muito de encontro ao que se fazia. Foi um risco que topei correr e sou feliz demais por esse atrevimento típico do nordestino. Ao longo do tempo esse trampo meu e de Ebel influenciou demais a molecada daqui do meu Estado e isso não tem preço. Não falo nem das músicas parecidas e tal (vi demais isso também kkk), mas falo do pensamento de achar sua identidade. Achar seu caminho… Se arriscar… Levar porrada e ressurgir com uma coisa sólida e que tenha verdade.

 

 

Sair da zona de conforto…

Falando no Mandinga, dá pra ver o som brasileiro num geral se destacando ainda mais no teu jeito de tocar e compôr. Agora, enquanto no primeiro disco dá pra escutar influências de Vai e Holdsworth, e no Mandinga, aparece um pouco de Wayne Krantz, o teu som no Pela Da Alma, arrisco dizer, é puro Fred Andrade.

No Pele da Alma acho que cheguei mais longe. Na verdade fui buscar o violão que tava lá e que nunca saiu da minha vida por um único instante. Nesse disco eu desliguei os metrônomos. Deixamos tudo respirar ainda mais. Tudo olho no olho. As músicas ralentam e voltam ao tempo, depois aceleram… Fizemos tudo que a melodia mandava. O segredo acho que é esse bicho. Não deixar você maior que a música nunca. É ela quem manda. Tá no comando de tudo. O instrumentista só amplifica o que já está no ar.

 

Foi como gravei meu disco também – é outro clima, sem colocar tudo debaixo de um microscópio, né? Bem mais gostoso de gravar.

Voltando ao último disco, também notei que seu timbre elétrico ficou mais crú. E aí caímos no assunto do equipamento – o que você anda usando, como foi e tem sido essa evolucão timbrística no seu trabalho?

Eu tô é tirando tudo do meu caminho (risos). Passei pela fase miserável daqueles racks encantados cheios de luzes. Tive tudo que você imaginar… Extrageiser, defecator e piorator deveriam se chamar assim por suas magníficas funções (claro que tem amigos gênios que conseguem tirar som bom desse bichos). Além do mais, acabei até relacionamento por isso. Gastava todo o meu dinheiro com esses condenados digitais.

Eu adorava ficar olhando no escuro. São lindos, mas o som….. Hoje uso muito Fuzz e gosto de tocar alto bem alto e depois tocar baixo, bemmm baixo. As vezes boto um delay abafado e imperfeito daqueles bem bregas que beiram locutores de rádio AM (aqueles mesmo em que a repetição é bem pertinho e na cauda se estragam). Tenho um puta amp feito do jeito que eu queria e o mais legal: por gente daqui. Acho isso foda!! O amp é um Altovolts feito num carinho viu…. O fuzz é da Deep trip e chama-se BOG. É feito por um caba de São Paulo chamado Du Menegozzo. Esse cara e a turma da Altovolts entendem exatamente o que curto. Gosto que a guitarra seja como um violão gigante e que tenha muita dinâmica. Tenho a sorte de ter um luthier genial de nome Zé Metal e catuca nas minhas guitarras até deixá-las do jeito que é bacana pro meu som. Sou um felizardo de verdade!!

Ah outra coisa: gosto de médios. Num fico com medo dos meus erros não. Guitarra sem médio é pra quem tá com medo do que tá falando. Adoro palhetar na nota errada e escutar aque puff fora do lugar. Amo quando dou aquela lapada na segunda corda solta e tô tocando em sol menor. Isso é a verdade pura e plena!!As imperfeições e você tentando, tentando e tentando….

 

Também não entra na minha cabeça essa galera tirando médio no ampli… coisa de doido…

E já que vc falou de violão, não posso passar batido sem falar no Noise Viola. O cd é lindo demais – vocês merecem fazer uma tour na Europa ou coisa assim, é muito elegante. Há planos para um disco novo?

O cd do Noise tá prontinho, Grua. Só falta agora chegar da fábrica.

 

E o aniversário do Mandinga, com o Ebel Perrelli; vai ter comemoração?

Sim, meu velho. Estamos parecendo dois meninos de novo. Ensaiando e curtindo demais. Conheço Ebel há muito tempo e interagímos muito bem tocando. Tá sendo um lance bem especial pois estamos tocando aquelas músicas feitas há dez anos ou um pouco mais. Tínhamos uma energia de uma usina hidrelétrica nas apresentações (risos) e agora, com cabelos mais brancos, estamos revistitando as músicas com um olhar diferente. Logo, logo, esse produto estará na área

 

Para terminar, como a galera que curte teu som pode achar teus discos, o dvd Guitarra Pernambucana, o material do Noise?

É só mandar um email no fredandrade1@yahoo.com.br. Abração e agradeço demais pela oportunidade de falar um pouco do trampo. Vamo ver se aos pouquinhos os brasileiros vão conhecendo os brasileiros né…. Brigadão e vamo que vamo!!!

 

Foi uma festa fazer essa entrevista – obrigado mesmo pelo carinho e tempo dedicados… abc!

Festa pra mim Grua. Num dê brecha não que véio fala pra cacete (risos)!

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~ por Paulo Grua em 01/02/2012.

3 Respostas to “Entrevista: Fred Andrade”

  1. Falar o quê…??? Uma entrevista bem conduzida, feita por gente que SABE o que está falando…e o entrevistado é um dos TOPS da guitarra brazuca…nada a dizer, apenas APLAUDO DE PÉ…!!! Viva o Brasil musical de todos os ritmos e cores…

    Abrações Musicais do ES !!!

  2. Gostei muito da entrevista. Parabéns!

    Abraço aos dois grandes músicos,

  3. Show de bola a entrevista.
    Um “pé na bunda” de quem tá com medo de se arriscar musicalmente.
    Abração!

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