Entrevista: Mateus Starling


Tive a oportunidade de conhecer por alto Mateus logo antes de sua ida aos EUA e, quando estava para voltar, trocamos alguns emails, e hoje tenho a chance de chamá-lo de amigo. Um cara tranquilo, carioca da gema, surfista nas horas vagas, pai em tempo integral, Starling é um cara que vai contra o estereótipo de músico ranzinza, individualista e que reclama da vida. Entre cds, shows, gravações, aulas e workshops, tem construído uma carreira recente, mas de bases firmes.

Esse papo, vale ressaltar, é minha tentativa de fazer uma entrevista – não sou jornalista, e nunca fiz isso antes. Mas, vamos ver como me saio.

Enjoy.

Quando te conheci, você estava prestes a ir para Berkley, e já tocava muito. Mas o quanto você acha que esse período foi importante pra formação do seu estilo pessoal?

Obrigado pelo tocava muito, hahaha. A Berklee foi imersão, hibernação musical, foi muito profundo e importante para eu analisar música de muitos aspectos, seja na improvisação ou composição. Tive a oportunidade de conhecer colegas que tocavam num nível muito superior ao meu e aprender com eles, além, claro, dos professores e da infraestrutura para se tocar. O lance do estilo, de ter uma linguagem, eu senti que realmente foi algo que veio de Deus, eu conversava muito com Ele nesse sentido e eu percebia que certas coisas aconteciam que não estavam somente no aprendizado musical.

E esse estilo marcante ficou claro no seu primeiro disco, Kairós. Como foi o processo pra se chegar na sonoridade daquele disco?

É engraçado que quando fiz o cd não fiquei com aquela cabeça de produtor pensando em dar uma cara ao trabalho, eu simplesmente compus e toquei o que era sincero para mim naquele momento. Meu objetivo era poder fazer composições atonais, mas sem cara de música erudita, com pegada de jazz, fusion e rock; essa era a minha concepção de composição. E no improviso, a gente seguia a mesma linha da liberdade de não ter tonalidade nem forma.

Percebo isso bem em músicas como Guerreiro – o riff é intenso, quase um hard rock ou prog, mas totalmente atonal. Como o púlbico jazzista e o roqueiro, normalmente bem divididos entre si, receberam o trabalho?

Acredito que um cara que faz um trabalho como o meu não esteja muito preocupado com o que as pessoas vão pensar. O meu som tem um vanguardismo que não é jazz nem é rock, então, no fim das contas curte o meu som aquele cara que esta meio cansado de ouvir o mesmo padrão dentro da músicainstrumental. Acho que o meu som é ame ou odeie.

Sem meio termos. Mas o sucesso de suas vídeo-aulas, em paralelo, mostram que muitos músicos tem sede de informações diferentes nesse mercado tão saturado, não?

O que acontece é que nunca houve um mercado organizado de aulas em vídeo. O lance de vídeo-aula surgiu com grandes nomes da música mostrando a sua maneira de tocar, era algo do artista para o fã, não era um material que realmente estava interessado no ensino.

Do outro lado chegou um momento que todo mundo posta uma aulinha no youtube, e eu surgi nesse meio tempo. Porém, fiquei 3 anos colocando em vídeo todo o meu aprendizado da Berklee e ao longo desses 20 anos tocando guitarra; eu dediquei algumas centenas de dias nesse material exatamente com o intuito de suprir uma necessidade didática visual. Existem muitos livros bons mas pouca coisa interessante em vídeo. Também tive a preocupação de fazer algo cronológico.

Vivemos um momento engraçado pois todo mundo baixa 1 milhão de músicas e métodos, mas a maioria das pessoas estão tocando da mesma forma e cheio de carência, portanto, a gente percebe que a inundação de informação sem um propósito acadêmico e sem uma cronologia não leva à evolução musical.

Você passou um período, após lançar o Kairós, ao mesmo tempo em que ministrava workshops e gravava suas vídeo-aulas, fazendo shows com seu (excelente) quarteto. Tive a oportunidade de assistir a um desses shows, e fiquei impressionado com a boa reação do público. Como foi isso, apresentar um estilo de música tão diferente, ainda mais num país onde atualmente o cenário instrumental/jazz praticamente inexiste?

Uma vez eu ouvi o Antonio Sanchez (batera do Matheny) dizendo que as vezes ele vai assistir certos shows de jazz e os caras estão lá tocando bem, mas cada um voltado para si, não tem nada acontecendo expontaneamente, não existe algo criado em conjunto – no sentido da surpresa. O meu quarteto é muito intenso, o lance é manter a atitude agressiva do rock, a pulsação, mas buscar a expontaniedade de caras como Sonny Rollins, Cecil Taylor, Monk, Miles Davis… O público percebe isso e entra junto, a galera vibra mesmo porque é verdadeiro. Também sou abençoado no sentido de que toco para um público que está afim de ouvir música instrumental. Faço um circuito grande em igrejas evangélicas, onde a galera quer ouvir o coro comer mesmo, não estão lá bebendo e conversando, mas sedentos por música.

Bem, e depois desse período todo, seu cd novo mantém a veia avant-garde, mas está certo dizer que um sotaque mais rock aparece em alguns improvisos?

O cd Free fusion mantém a concepção de liberdade, mas ficou mais pesado. Usei um VOX AC 15 o tempo todo com um pouco de saturação, até para tocar balada. Eu comecei tocando rock, então acredito que isso transpareça na minha maneira de tocar.

E como foi gravar esse disco? Foi a mesma banda que vinha tocando com você ao vivo?

Isso mesmo, desde que cheguei no Brasil a banda é basicamente a mesma, Berval Moraes, Julio Merlino e Lucio Vieira. Eles ja tocavam as musicas do Kairós, que havia sido gravado nos EUA com músicos de lá e tiveram muito tempo para se adaptar a linguagem. A gravação foi numa seção de 5 horas, gravamos uns 3 takes de cada música e escolhemos o que mais curtimos.

O inter-play é marcante no disco – a vibe de “ao vivo no estúdio” é contagiante. Uma dúvida que fica ao escutar o disco é: até que ponto as bases são arranjadas? Durante os solos, toda a banda está criando, ou há sempre algo pré-determinado?

Os temas são ensaiados; nos solos, tirando “Cruz”, em que o tempo inteiro o groove do baixo é o mesmo, para dar um ar meio eletrônico, todas as outras músicas a galera tinha liberdade para tocar o que quisesse. “Silêncio de Deus” e “Deixados Para Trás possuem acordes no improviso, por isso o cara precisa criar em cima das progressões, mas as outras seguiam aquela mesma concepção de não ter forma nem tom.

Silêncio de Deus é uma balada muito lírica, e me lembra em alguns momentos uma sonoridade no estilo de artistas como Ben Monder e Kurt Rosenwinkel. Quem tem te influenciado atualmente?

Eu tenho ouvido Keith Jarret, Sonny Rollins, Monk, 95% do que ouço vem de pianistas e instrumentos de sopro, quase não ouço guitarristas.

Interessante – essa é a resposta de alguns dos guitarristas mais importantes do jazz/fusion, de Scott Henderson e John Scofield a Allan Holdsworth. A linguagem do improviso jazz passa necessariamente pelos instrumentos de sopro?

Se você pegar a boa fase do jazz, lá para os anos 40, 50 e 60, tem muito pouco guitarrista improvisando. Os grandes improvisadores não foram guitarristas, apesar de Charlie Christian e posteriormente Wes Montgomery…. mas pensa num guitarrista conteporâneo de caras como Coltrane; não tinha guitarrista tocando naquele nível naquele momento. Portanto, existe um período onde o jazz era majoritariamente dominando por improvisadores que tocavam sopro ou piano.

Então, é uma questão de referência histórica, mais do que limitação técnica, certo?

Tem a questão histórica mas também tem a questão da guitarra ter bombado em função do rock – e não do jazz. Sendo que o rock é um estilo com pouco espaço para improviso.

Pra terminar: já que este é um blog que fala bastante de equipamento, vc pode descrever o que usou no cd novo, e o que tem usado ao vivo, em termos de guitarra, pedais e amps?

No cd novo usei Vox Ac15 de amp, BB Preamp, POD x3 e Digitech Sound Factory. Uso a mesma coisa no show, só nao uso o Vox, que era do estúdio, mas tenho usado um amp ZT pequeno por ser fácil de carregar.

Valeu, Mateus, muito obrigado pelo tempo cedido pra essa entrevista!

Valeu, Paulo, um abraço!

Você pode saber mais sobre Starling e seus discos, aulas e vídeo-aulas em www.mateusstarling.com.br/

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~ por Paulo Grua em 12/01/2012.

Uma resposta to “Entrevista: Mateus Starling”

  1. muito bom Grua!
    entrevista simples e direta.

    abs.

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